30.8.26

Entre conjugações e contas

Hoje eu quero contar a história de um amigo, o Cleiton. Ele possui dois vícios peculiares: comprar e desistir. Dois verbos, duas conjugações diferentes. Na matemática, um soma e o outro subtrai.

A primeira manifestação aconteceu ainda na adolescência: queria ser desenhista. Juntou dinheiro e comprou um livro que ensinava a desenhar. Nunca chegou a abri-lo. Tentou fazer um esboço aqui e ali, mas chegou à conclusão de que aquilo não era para ele. Nenhum traço fazia sentido e, talvez, verde limão não ficava muito bom com marrom. E apenas desistiu.

Continuou a escola, pois, desde criança, sabia que precisava ganhar dinheiro. Não podia ficar sem emprego em nenhum momento de sua vida. Seu primeiro emprego foi em uma lanchonete, era responsável por lavar os utensílios usados. Um ambiente amigável. Ficou lá bastante tempo. Foi crescendo e chegou a ser gerente. Mas sabia que queria mais.

Foi então que decidiu entrar na USP. Não tinha dinheiro para pagar uma faculdade particular, então,  uma pública era a solução. Pensou em fazer Engenharia Civil. Decidiu, então, entrar em um cursinho. Na primeira aula descobriu que aquilo seria impossível. Não entendia uma palavra do que os professores diziam, mesmo sendo conteúdos do Ensino Médio. Então desistiu e iria tentar outra coisa.

Entrou em uma faculdade particular e foi fazer História. Era a sua matéria preferida na escola e sempre ia bem. O primeiro dia de aula foi incrível. Tinha nascido para aquilo. Seria o melhor professor do mundo.

Ao longo do curso, aplicou para todos os processos seletivos de estágio que apareciam, principalmente nas grandes escolas. Entrou em uma menor, mas ficou animado pois poderia colocar tudo o que havia estudado em prática.

E o emprego na lanchonete? Pediu demissão por conta do estágio. Foram 10 anos de trabalho. Não falou para ninguém, pois iriam crucificá-lo. Onde já se viu, jogar todo esse tempo no lixo. E o FGTS? A rescisão?

Ficou dois anos no estágio, pois queria aproveitar o máximo que conseguisse. E foram os melhores anos da sua vida. Cativou os alunos, deu muitas ideias que foram colocadas em prática e ajudou muitos professores. Foi efetivado e, pela primeira vez, não havia desistido. Passaria o resto da vida ali. Aí, chegou a pandemia, e tudo mudou. A escola reduziu a quantidade de professores e foi demitido. 

Começou, então, a procurar emprego. Sabia que não poderia ficar sem dinheiro. Começaram os nãos. A cada nova entrevista recebia um "te avisaremos mais tarde sobre o processo". A resposta sempre era não. Chegou a ouvir que estava velho demais para um professor júnior. E, então, desistiu. Iria tentar outra área, pois essa não era mais para ele.

Queria mudar os ares e foi aí que o comprar entrou em cena. A cada semana uma nova área seria sua e, para isso, precisava de um curso novo. E assim foi, compra atrás de compra. Desistência atrás de desistência. Parou de comprar pois não tinha mais limite no cartão. Precisava de dinheiro para comer e viver. Nem que fosse apenas o básico.

Talvez se Cleiton tivesse substituído o verbo desistir pelo aprender algumas coisas teriam sido diferentes. Segunda conjugação. Na matemática, multiplicação. Poderia começar pelo 2 x 1.Talvez tivesse chegado longe. Talvez tivesse evoluído mais. Talvez tivesse conhecido o mundo que passou quatro anos estudando na faculdade de História. Talvez tivesse um futuro diferente.

Um "talvez" que irá assombrá-lo, mas que bastaria uma mudança no verbo. Uma decisão que nunca conseguiu tomar.

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27.5.26

Como é participar do clube de leitura "Ler o Agora"

A leitura foi algo que sempre esteve presente na minha vida. Em alguns momentos, mais forte, em outros, menos.

Nos últimos anos tenho utilizado o momento que fico no transporte público para ler. É uma oportunidade de transformar um tempo "morto" em algo produtivo. E o Kindle também tem facilitado muito esse processo.

Confesso que nunca passou pela minha cabeça participar de um clube de leitura. Pra mim, ler sempre foi algo muito individual, no máximo recomendava livros para alguns amigos e trocávamos algumas ideias. Nada muito organizado, sempre casualmente e bem de vez em quando.

Participar do Ler o Agoraaconteceu meio que por acaso. Lembro que o João, meu digníssimo marido, mostrou um post sobre o evento que rolaria a discussão sobre o livro Jacarandá, do Gaël Faye.

Li a sinopse e fiquei fascinado pela história. Falei, então, para participarmos do encontro em questão.

Como funciona a dinâmica?

O objetivo do clube é ler livros de autores contemporâneos e que ainda estejam vivos. É algo completamente fora da minha "zona" de leitura. Costumo ler bastante ficção científica e alguns autores 15+ (oi Rick Riordan).

A mediadora é a Raquel Toledo e os encontros ocorrem sempre na última quinta-feira do mês, na Casa Sincopada.

Os papos costumam durar uma hora. As discussões são sempre muito gostosas e, apesar das opiniões contrárias, muito respeitosas.

Em dois momentos tivemos a honra de receber as tradutoras dos livros, o que ampliou ainda mais a conversa.

No final, ela apresenta as opções e votamos qual será o livro que iremos ler no próximo mês.

Quais são as minhas percepções?



Preciso admitir: imaginei que participaríamos apenas do encontro sobre o Jacarandá e dificilmente iríamos voltar. Mas fomos voltando, voltando e acabei criando uma relação muito gostosa com as pessoas.

As votações são sempre muito divertidas e a Raquel faz uma curadoria de livros bem interessantes.

Ao longo desses 8 meses em que já estamos participando, acabei entrando em contato com títulos que nunca iria ler. Gostei de alguns, outros nem tanto. Mas também fui surpreendido por alguns que julguei apenas pela sinopse.

Mas, o que mais tenho gostado, é das pessoas e da energia do clube. Em alguns momentos participei de encontros em que cheguei lá extremamente irritado, mas saí leve e renovado. Tem sido uma experiência muito gostosa!

E, claro, a Raquel é uma pessoa incrível. É muito gostoso como ela conduz a conversa e o que ela traz além da narrativa do livro. É aquele "cristalzinho" que dá vontade de passar o dia todo conversando.

O que já lemos até agora:

- Jacarandá - Gael Faye. Trad. Raquel Camargo e Mirella Botaro: Um livro lindo com tema central no genocídio que aconteceu em 1994 em Ruanda.

- Chilco - Daniela Catrileo. Trad. Elisa Menezes: Um livro triste sobre especulação imobiliária e uma ilha que não existe.

- O Hipopótamo - Chico Mattoso. As consequências da ditadura através da percepção de uma criança.

- A Falência - Júlia Lopes de Almeida. Um novelão das 21:00hrs (o único que dropei até agora).

 - Ornamento - Juan Cadenás. Trad. Maria Waquil. Um livro doido sobre uma droga que só faz efeito em mulheres.

- Ressuscitar Mamutes - Silvana Tavano. Um dos livros mais tristes que li nessa vida toda.

- O Adversário - Emmanuel Carrère. Trad. Mariana Delfini. Um crime surreal que até agora eu me pergunto “como ninguém desconfiou?”

Amanhã, dia  28, vamos discutir o livro O Aniversário - Andrea Bajani. Trad: Iara Machado Pinheiro

Quer participar? É só "colar" na Casa Sincopada, todos serão bem vindos!

Clube Ler o Agora
Data: Última quinta do mês às 20:00hrs
Local: Casa Sincopada
Endereço: R. Treze de Maio, 586 - Bela Vista, São Paulo - SP

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3.2.26

Ainda há espaço para escrever?

Fui criado em uma época que escrever sobre o que aconteceu em seu dia era o principal conteúdo gerado por qualquer pessoa na internet. Durante muito tempo mantive o "confissõesdeumclubber.blig.com.br" com conteúdos que pareciam mais conversas de bar. Tudo isso em uma época que eu não podia e nem costumava beber.

Confesso que era uma época que eu amava e sinto ainda muita falta.

Tem alguns anos que ensaio voltar com um blog, mas sempre acontece alguma coisa que tira aquela motivação e o tesão em escrever. Porém decidi que em 2026 quero mudar esse cenário e fazer ao menos um post por semana.

Sem pressão ou expectativas! Apenas pelo tesão de organizar as palavras e tentar fazer algum sentido.

E o que podemos esperar?

Confesso que esse foi um dos principais pontos que me questionei enquanto estava personalizando o layout desse blog. Então decidi concentrar em 3 pontos que fazem meu coração palpitar.

Livros: eu amo ler desde quando era adolescente e sempre tive um gosto um pouco peculiar. Quero contar as minhas percepções sobre o que tenho lido e trazer indicações de coisas interessantes. Espere de Willian Gibson até Rick Riordan.

Música: ainda se faz música como nos anos 2000? É isso que quero descobrir. Aqui pretendo trazer coisas que apareceram enquanto estava navegando pelo Spotify, mas também relembrar coisas que estão na minha playlist desde os 15 anos.

Listas: sou um orfão do Top Top da MTV e acredito que nunca fizeram um programa com a criatividade e qualidade de pesquisa como ele. Aqui espere os assuntos mais aleatórias, como o ranking das melhores paquitas, até questões importantes da sociedade como os mogs de ombros essenciais para Magos no WoW.

Essas três categorias serão suficientes? Não sei! Mas acredito que seja um bom começo para esse canal.

Vamos juntos? 

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