Hoje eu quero contar a história de um amigo, o Cleiton. Ele possui dois vícios peculiares: comprar e desistir. Dois verbos, duas conjugações diferentes. Na matemática, um soma e o outro subtrai.
A primeira manifestação aconteceu ainda na adolescência: queria ser desenhista. Juntou dinheiro e comprou um livro que ensinava a desenhar. Nunca chegou a abri-lo. Tentou fazer um esboço aqui e ali, mas chegou à conclusão de que aquilo não era para ele. Nenhum traço fazia sentido e, talvez, verde limão não ficava muito bom com marrom. E apenas desistiu.
Continuou a escola, pois, desde criança, sabia que precisava ganhar dinheiro. Não podia ficar sem emprego em nenhum momento de sua vida. Seu primeiro emprego foi em uma lanchonete, era responsável por lavar os utensílios usados. Um ambiente amigável. Ficou lá bastante tempo. Foi crescendo e chegou a ser gerente. Mas sabia que queria mais.
Foi então que decidiu entrar na USP. Não tinha dinheiro para pagar uma faculdade particular, então, uma pública era a solução. Pensou em fazer Engenharia Civil. Decidiu, então, entrar em um cursinho. Na primeira aula descobriu que aquilo seria impossível. Não entendia uma palavra do que os professores diziam, mesmo sendo conteúdos do Ensino Médio. Então desistiu e iria tentar outra coisa.
Entrou em uma faculdade particular e foi fazer História. Era a sua matéria preferida na escola e sempre ia bem. O primeiro dia de aula foi incrível. Tinha nascido para aquilo. Seria o melhor professor do mundo.
Ao longo do curso, aplicou para todos os processos seletivos de estágio que apareciam, principalmente nas grandes escolas. Entrou em uma menor, mas ficou animado pois poderia colocar tudo o que havia estudado em prática.
E o emprego na lanchonete? Pediu demissão por conta do estágio. Foram 10 anos de trabalho. Não falou para ninguém, pois iriam crucificá-lo. Onde já se viu, jogar todo esse tempo no lixo. E o FGTS? A rescisão?
Ficou dois anos no estágio, pois queria aproveitar o máximo que conseguisse. E foram os melhores anos da sua vida. Cativou os alunos, deu muitas ideias que foram colocadas em prática e ajudou muitos professores. Foi efetivado e, pela primeira vez, não havia desistido. Passaria o resto da vida ali. Aí, chegou a pandemia, e tudo mudou. A escola reduziu a quantidade de professores e foi demitido.
Começou, então, a procurar emprego. Sabia que não poderia ficar sem dinheiro. Começaram os nãos. A cada nova entrevista recebia um "te avisaremos mais tarde sobre o processo". A resposta sempre era não. Chegou a ouvir que estava velho demais para um professor júnior. E, então, desistiu. Iria tentar outra área, pois essa não era mais para ele.
Queria mudar os ares e foi aí que o comprar entrou em cena. A cada semana uma nova área seria sua e, para isso, precisava de um curso novo. E assim foi, compra atrás de compra. Desistência atrás de desistência. Parou de comprar pois não tinha mais limite no cartão. Precisava de dinheiro para comer e viver. Nem que fosse apenas o básico.
Talvez se Cleiton tivesse substituído o verbo desistir pelo aprender algumas coisas teriam sido diferentes. Segunda conjugação. Na matemática, multiplicação. Poderia começar pelo 2 x 1.Talvez tivesse chegado longe. Talvez tivesse evoluído mais. Talvez tivesse conhecido o mundo que passou quatro anos estudando na faculdade de História. Talvez tivesse um futuro diferente.
Um "talvez" que irá assombrá-lo, mas que bastaria uma mudança no verbo. Uma decisão que nunca conseguiu tomar.
Muito bom te ler! Uma crônica que traz toda uma trajetória de repetição de um padrão. O importante é que, tendo consciência dele, podemos trabalhar para quebrá-lo!
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